
Cícera Martins
“O que nos dizem os sinos da paz? (…) Sinos de paz são sinos de gratidão… e da expiação que nosso povo deve fazer… Precisamos reaprender a pensar de outra forma. Queremos nos inclinar diante de Cristo e do que Ele diz. O demônio nunca atacou como hoje a personalidade humana. Deus é a maior proteção da imagem do homem.”
Com essas palavras, o padre José Kentenich começou suas “missões populares” pós-guerra, com as quais pretendia, junto a seus ouvintes, elaborar os anos passados de guerra, após ser libertado do Campo de Concentração de Dachau.
A libertação do padre José Kentenich do campo de concentração não foi apenas o fim de um cativeiro físico, foi a confirmação viva de uma espiritualidade que amadureceu na provação. Dachau, símbolo do terror do regime nazista, tornou-se paradoxalmente um lugar onde a liberdade interior mostrou ser mais forte que as grades, a fome e o medo.
Preso por sua influência religiosa e pela força formativa do Movimento de Schoenstatt, o padre Kentenich passou anos submetido à humilhação e à incerteza. No entanto, sua atitude diante do sofrimento revela algo profundamente humano e espiritual: a capacidade de transformar a dor em oferta, a perseguição em missão, o isolamento em comunhão. Para ele, o campo não era apenas um espaço de privação, mas também um lugar onde Deus continuava a agir na história.
A libertação, em 1945, não significou simplesmente sair de um território cercado por arames farpados, mas representou a vitória da dignidade humana sobre a barbárie e a reafirmação da fé como força que sustenta quando todas as estruturas externas desmoronam. Ao deixar Dachau, o padre Kentenich carregava consigo não o peso do ressentimento, mas uma convicção ainda mais profunda sobre a importância da liberdade interior – aquela que ninguém pode aprisionar. E essa experiência, ele queria transmitir às pessoas desde sua libertação, para ajudá-las também a reconstruir suas vidas, com o olhar do “homem novo, numa nova sociedade”.
Qual o verdadeiro sentido de liberdade? Quantas vezes associamos liberdade apenas à ausência de limites externos? A experiência do padre Kentenich mostra que, mesmo em condições extremas, o ser humano pode escolher sua atitude, pode amar, pode confiar. A libertação exterior veio como consequência de um processo histórico maior – o fim da guerra e do regime nazista –, mas sua libertação interior já estava em curso muito antes.
Recordar esse momento é também reconhecer que a esperança pode sobreviver em meio à escuridão mais densa. Nos tempos de hoje, as palavras do padre Kentenich soam muito atuais: “Há tantas coisas que nos unem… temos a mesma tarefa de vida e também nos damos as mãos nesse sentido. Cada um de nós deve e quer ajudar, na sua nação, a eliminar cada vez mais o ódio entre as pessoas e os povos”.
O exemplo do Pai Fundador de Schoenstatt nos desafia a perguntar: onde estão hoje nossos “campos de concentração” pessoais? Medos, inseguranças, pressões sociais, crises de fé? O que nos leva a alimentar a cultura do ódio que nos rodeia?
A resposta talvez esteja na mesma fonte que o sustentou: a confiança radical de que nenhuma noite é eterna, a confiança vitoriosa no atuar de Deus e a colaboração com esse atuar divino para salvar e reerguer a humanidade.
A libertação de Dachau permanece como um símbolo de sobrevivência e de transformação, de resistência e de fidelidade. E, sobretudo, de que a liberdade mais profunda nasce no interior – e é ali que começa toda verdadeira reconstrução.
Queremos ouvir e realizar hoje as palavras do Fundador, que, naquele contexto pós-guerra, convidou-nos a agir: “Toma o Filho e sua Mãe e vai à casa vizinha. Vamos ajudar Maria a construir um mundo novo”
D. Schlickmann. José Kentenich – uma vida à beira de um vulcão. RS: Sociedade Mãe Rainha, 2020, p. 225.
D. Schlickmann. José Kentenich – uma vida à beira de um vulcão. RS: Sociedade Mãe Rainha, 2020, p. 227.
D. Schlickmann. José Kentenich – uma vida à beira de um vulcão. RS: Sociedade Mãe Rainha, 2020, p. 224s.