
Maria Rita Vianna
“Caíram as algemas” – assim inicia a estrofe 612 do livro Rumo ao Céu; é o Hino de Gratidão, oração composta pelo Pe. José Kentenich em gratidão pela sua libertação do campo de concentração de Dachau.
Porém, a história começa antes…
Em 1933, a Alemanha contamina-se pela ideologia do Partido Nacional-Socialista, liderado pelo ditador Adolf Hitler, nomeado como Chanceler. Inicia-se um período de perseguições e repressão, culminando na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto.
A Obra de Schoenstatt não fica impune da perseguição nazista, a partir de setembro de 1941, quando Pe. Kentenich encontra-se pregando retiro para sacerdotes; ele convence a polícia a deixá-lo concluir e retiro e, como prometera, em 20 de setembro, dirige-se à prisão de Coblença, cidade às margens do Rio Reno, com sua batina mais velha e calçando suas botas mais gastas.
Até o dia 18 de outubro, permanece como prisioneiro no bunker, um minúsculo cubículo na masmorra do cárcere. Dois generosos guardas permitem que, de forma clandestina, dali haja correspondência entre o Pe. Kentenich e a Família de Schoenstatt da época.
Em 13 de janeiro de 1942, sob a ameaça de enviá-lo ao campo de concentração de Dachau, o que, sabia-se, era sentença de morte, Pe. José Kentenich é novamente submetido a outro interrogatório e a novo exame médico, em 16 de janeiro. Sabe-se que apenas um dos pulmões do Pe. Kentenich era perfeito; mesmo assim, é considero apto para o campo, como escreve em um bilhete para a Família de Schoenstatt., acrescentando: “Mas ninguém deve preocupar-se por causa disso”.
A resposta da Família e a resposta do Pe. Kentenich
A Família ‘preocupa-se’ sim e tenta tudo humanamente possível para evitar que a decisão da Gestapo fosse cumprida, solicitando novo exame médico. Tudo dependia de uma resposta do Fundador, aceitando considerar-se inapto.
Começa a luta interna espiritual do Pe. Kentenich: deveria assinar o pedido? Qual seria o plano da Divina Providência para sua vida? Anos mais tarde, assim se expressa:
“Foram dias terríveis. Interiormente lutei e rezei. Não tive nenhuma visão, nenhum sonho, nem sequer uma iluminação especial. Na luta solitária, contava apenas com a simples fé na Providência. Horas seguidas andei para cá e para lá na minha cela: lutava, rezava e não sabia o que fazer”.
A decisão
Todos os dias, clandestinamente, Pe. José Kentenich celebrava a Santa Missa; na noite do dia 19 para dia 20 de janeiro, no momento supremo da Consagração do Pão e do Vinho, o Espírito Santo sopra-lhe a vontade divina: esquecer as possibilidades de libertar-se por meios humanos e entregar-se, pela Família, como ele declara:
“De coração, sacrifico a minha liberdade exterior para que nunca falte à Família de Schoenstatt a liberdade interior”.
Pe. José Kentenich é, então, levado para o campo de concentração, o inferno de Dachau, como mais tarde afirma.
Tempos de muitas cruzes e muitos sofrimentos… até 6 de abril, quando é libertado de Dachau, vivo e ileso fisicamente. Ao mesmo tempo, tempos ricos de graças, porque, no campo de concentração, é fundado o Instituto Secular dos Irmãos de Maria e a Obra das Famílias; com a ajuda de um ‘secretário’, elabora o livro Rumo ao Céu, como citado logo no início; até o Terceiro Documento de Fundação, composto por conferências que ali ele realiza.
O 20 de janeiro vivido hoje
Temos o 20 de janeiro como o “Segundo Marco da História de Schoenstatt – estar na Confiança Divina”, porque o Fundador deixa o exemplo de que tudo está nos bons e misericordiosos planos de Deus e a melhor forma para entendê-los é viver a filialidade heroica, a fé prática na Divina Providência, mesmo em meio às dificuldades diárias.
A atitude da filialidade heroica ensina a viver a verdadeira liberdade, a liberdade de filhos e filhas de Deus que ama pessoalmente cada um; ensina a tudo aceitar, mesmo quando tudo seja humanamente custoso, difícil; ensina a superar o comodismo, o mecanicismo (tema para outro dia…), a fugir das falsas ideologias. Ensina a crer que Deus fala por meio das segundas causas, por meio de todos os acontecimentos e que só cabe a nós responder com ousadia e confiança.
Cabe-nos seguir o exemplo do Pe. José Kentenich em sua entrega livre, total e incondicional, aceitando as pequeninas cruzes que temos, os sofrimentos, as dores, tudo entregando ao Capital de Graças da querida Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt que acolhe com todo amor maternal e tudo transforma em bênçãos e graças para seus filhos e filhas.
Do fundo do coração, cantar e viver a música:
“Pai, Pai Fundador, teu carisma por nós é vivido; alguns viram, outros não, não importa, somos Tabor de uma mesma Família…”
Para refletir:
Entendo o que é ser Tabor?
Eu sou mesmo Tabor?
Vivo o carisma da Obra de Schoenstatt?